Amato Lusitano (1511 - 1568)

jueves 19 enero 2017

     João Rodrigues (1511 – 1568) foi um notável médico e humanista, português e judeu, do século XVI, conhecido como Amato Lusitano ou Amatus Lusitanus.

     João Rodrigues nasceu em 1511 na cidade de Castelo Branco (Beira Baixa), sendo descendente da família Chabib, em latim “Amatus”, que significa “amado”.

    Aos 14 anos foi estudar Medicina para a Universidade de Salamanca, onde, com 15 anos, escreveu um comentário sobre a obra de Dioscórides, sendo pioneiro neste âmbito.

    Terminou os seus estudos com 18 anos, graduando-se com honores e recebendo a licença para exercer medicina.

       Em 1529 regressou a Portugal instalando-se em Lisboa, onde trabalhou como médico até 1534. Durante o período que residiu em Portugal teve oportunidade de estudar cientificamente as plantas ibéricas, sendo o primerio em fazê-lo, contribuindo para a Biologia, Farmacopeia e Botânica Médica.

    Contudo a crescente perseguição aos judeus promovida pela Inquisição Portuguesa obrigou-o a abandonar Portugal, partindo para Antuérpia. Foi nesta cidad belga onde escreveu o seu primeiro livro “Index Dioscoridis” (1536), adoptando o nome de Amatus Lusitanus, nome com o qual assinaria todas as suas obras.

     Entre 1534 e 1541 permaneceu no ambiente clínico e científico flamengo, tendo realizado algumas viagens a França.

  Em 1541 decide partir para Itália, estabelecendo-se em Ferrara, em cuja Universidade ensinou anatomia, como professor assistente do médio e anatomista Giambattista Canano.

     Foi em Ferrara que Amato Lusitano descubriu a circulação do sangue e descreveu por primeira vez as válvulas venosas e a sua função, mediante a dissecação da veia Ázigos. Esta descoberta contradizia as crenças convencionais da época, segundo as quais o sangue fluia apartir do coração por via das artérias e das veias, não passando em nenhum momento da rede venosa à rede arterial.

      Enquanto professor da Universidade de Ferrara deu várias conferências sobre plantas medicinais e sobre anatomia. Numa dessas conferências procedeu à dissecação de vários cadáveres e demonstrou o papel das válvulas venosas. Soprando ar pela parte inferior da veia Ázigos mostrou que a veia cava não inchava, já que a válvula venosa impedia a passagem do ar. Se o ar era impedido de passar, o mesmo acontecia com o sangue, que sendo mais espesso também não poderia fluir.

     De forma errónea esta descoberta foi atribuida a Giambattista Canano, professor principal e que se encontrava presente durante esta demonstração.

      Durante a sua estadia de 6 anos em Ferrara, Amato Lusitano recebeu o convite do Rei da Polónia para se instalar naquele país e exercer de médico real, convite que Amato Lusitano recusou, preferindo establecer-se em Ancona, em 1457, onde existia uma maior tolerância religiosa. Nesta cidade curou Jacoba del Monte, irmã do Papa Júlio III e publicou o livro “Tratamento das estenoses uretrais” (1552), com o qual alcançou grande notoriedade.

     Por um breve período residiu em Veneza, onde teve contacto com o médico e filósofo Jacob Mantino, tratou Diego de Mendoza, embaixador de Carlos V e a sobrinha do Papa Júlio III.

     O aumento da instabilidade política e religiosa levou-o a instalar-se, em 1550, em Roma, onde prestou serviços médicos ao Papa Júlio III, que faleceu em 1555. Foi sucedido pelo Papa Marcelo II, cujo papado durou apenas 22 dias. À morte deste Paulo VI foi nomeado Papa e intensificou a perseguição aos judeus.

   Amato Lusitano, temendo ser perseguido pela sua religião, viu-se obrigado a fugir da cidade, abandonando as suas posses e a sua magnífica biblioteca. Decidiu deixar Itália e procurar refúgio no Império Otomano.

     Entre 1555 e 1558 viveu na República Independente de Ragusa (actual Dubrovnik, Croácia), onde escreveu os tratados “In Dioscorides de Medica materia Librum quinque enarrations” (1556) e “Curationum Centuriae Septem” (1556).

    Em 1558 estabeleceu a sua residência em Tessalónica (actual Salónica, Grécia), pertencente ao Império Otomano e cidade com uma grande população judaica. Nesta cidade prestou assistência médica a várias personalidades ilustres, entre elas D. Afonso de Lencastre, embaixador português em Tessalónica.

     Anos mais tarde a cidade foi assolada por uma epidemia de peste e, em 1568, com 57 anos, Amato Lusitano faleceu vítima da peste que tentou combater.

    Amato Lusitano dominava várias línguas: latim; grego; hebraico; árabe; português; castelhano; francês; italiano e alemão. Foi pioneiro na abordagem clínica da sexologia, descrevendo pormenorizadamente os órgãos genitais masculinos e femininos, as doenças venéreas e o seu tratamento, a gravidez, o desenvolvimento embrionário, o parto, o aborto e várias doenças frequentes durante a gravidez.

    Enriqueceu a literatura médica com várias obras valiosas, que durante muito tempo gozaram do mais alto prestigio. A sua obra mais importante é “Curationum Medicinalium Centuriæ Septem” (Centúrias de Curas Medicinais), obra publicada postumamente em León, em 1580.

     Amato Lusitano iniciou a escrita da primeira Centúria em Ferrara, em 1541, dedicando-a a Cosme de Médici. A séptima e última Centúria foi escrita em 1561, em Tessalónica e inclui o “Juramento de Amato” *.

     Esta obra é o fruto da compilação dos trabalhos desenvolvidos entre 1541 e 1561. Cada Centúria contém 100 casos clínicos, descritos em pormenor, com informação sobre os doentes, as doenças e os tratamentos prescritos. Trata-se de uma obra de grande importância para a compreensão da sociedade europeia do século XVI e foi traduzida em 59 línguas.

 

* Juramento Médico de Amato Lusitano

     “Juro perante Deus imortal e pelos seus dez santíssimos mandamentos, dados no Monte Sinai ao povo hebreu, por intermédio de Moisés, após o cativeiro do Egipto, que na minha clínica nada tive mais a peito do que promover que a fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros; e para isso nada fingi, acrescentei ou alterei em minha honra ou que não fosse em benefício dos mortais; não lisonjeei, nem censurei ninguém ou fui indulgente com quem quer que fosse por motivos de amizades particulares; sempre em tudo exigi a verdade; se sou perjuro, caia sobre mim a ira do Senhor e de Rafael, seu ministro, e ninguém mais tenha confiança no exercício da minha arte; quanto a honorários, que se costumam dar aos médicos, também fui sempre parcimonioso no pedir, tendo tratado muita gente com mediana recompensa e muita outra gratuitamente; muitas vezes rejeitei, firmemente, grandes salários, tendo sempre mais em vista que os doentes por minha intervenção recuperassem a saúde, do que tornar-me mais rico pela sua liberalidade ou pelos seus dinheiros; para tratar os doentes jamais curei de saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei maometana; não corri atrás das honras e das glórias e com igual cuidado tratei dos pobres e dos nascidos em nobreza; nunca provoquei a doença; nos prognósticos disse sempre o que sentia; não favoreci um farmacêutico mais do que outro, a não ser quando em algum reconhecia, porventura, mais perícia na arte e maior bondade de coração, porque então o preferia aos demais; ao receitar sempre atendi às possibilidades pecuniárias do doente, usando de relativa moderação nos medicamentos prescritos; nunca divulguei o segredo a mim confiado, nunca a ninguém propinei poção venenosa, com minha intervenção nunca foi provocado o aborto; nas minhas consultas e visitas médicas femininas nunca pratiquei a menor torpeza; em suma, jamais fiz coisa de que se envergonhasse um médico preclaro e egrégio.

      Sempre tive diante dos olhos, para os imitar, os exemplos de Hipócrates e de Galeno, os pais da Medicina, não desprezando as obras monumentais de alguns outros excelentes mestres na Arte Médica; fui sempre diligente no estudo e por tal forma que nenhuma ocupação ou circunstância, por mais urgente que fosse, me desviou da leitura dos bons autores; nem o prejuízo dos interesses particulares, nem as viagens por mar, nem as minhas frequentes deambulações por terra, nem por fim o próprio exílio, me abalaram a alma, como convém ao homem sábio; os discípulos que até hoje tenho tido em grande número e em lugar dos filhos tenho educado, sempre os ensinei muito sinceramente a que se inspirassem no exemplo dos bons; os meus livros de Medicina nunca os publiquei com outra ambição que não fosse contribuir de qualquer modo para a saúde da humanidade.

      Se o consegui, deixo a resposta ao julgamento dos outros, na certeza de que tal foi sempre a minha intenção e o maior dos meus desejos”.





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